Ensinando Zotero com websites
2026-09-11
Há alguns meses surgiu a oportunidade de dar uma aula curta de Zotero num evento internacional na UECE (Universidade Estadual do Ceará). Eu tinha uma regra só pra mim: me recusei a usar slides.
Este post é a história de como me preparei pra isso, e por que escolhi construir uma documentação (um tipo de website) em vez de slides.
a preparação
O Zotero é uma ferramenta livre e de código aberto pra organizar referências, mas a aula era sobre outra coisa: competência em informação. Nomear as coisas, manter elas encontráveis, saber onde mora o seu material e de fato usar aquilo que você encontra.1
Pesquisadores costumam não chegar lá por motivos bem concretos: não sabem que essas ferramentas existem, acham que aprender uma vai levar tempo demais, ou supõem que manter a biblioteca em dia vira um segundo emprego.2
Pra contribuir um pouco com isso, comecei a olhar como as pessoas ensinavam Zotero. As universidades oferecem vários formatos: vídeos, PDFs, sites assíncronos.3 Mas o que eu ficava voltando era uma ideia bem freireana: o treinamento deve mirar a autonomia.4
Se você entrega slides, a pessoa olha uma vez e esquece. Se entrega material pra onde ela pode voltar, ela sai com uma prática que construiu sozinha.
documentação em vez de slides
Eu precisava de um site. Na época, eu estava decidindo entre Quarto e Astro. Fiquei sabendo do Astro por um amigo próximo, um desenvolvedor web que vem usando ele nos projetos pessoais dele e me mostrou. O Quarto é ótimo pra publicação acadêmica tradicional, mas eu acabei apostando no Starlight (o framework de documentação do Astro). Era rápido, e tinha recursos prontos que deixavam a separação do site em português, inglês e espanhol bem mais fácil.
Escrever a documentação me forçou a ser preciso e, às vezes, repetitivo sobre passos que eu normalmente faço no automático. Cheguei a instalar o Zotero em todo computador que eu encontrava só pra ver que erros aleatórios iam aparecer.
Pra dar conta da logística, escrevi um script rápido em R pra mandar email pros mais de 100 inscritos com os links e as instruções (o script está aqui).
Pra aula em si, a gente se apoiou na documentação e num Framapad (obrigado à Open Life Sciences e ao The Carpentries pela inspiração!). A ideia era usar o pad como um documento colaborativo, onde a gente faria os exercícios práticos junto, tipo arrastar artigos e consertar metadados ruins em tempo real.
a aula
Apareceram umas 36 pessoas no dia, e cerca de 25 ficaram até o fim. A pergunta mais frequente não era sobre o Zotero em si. Era: "o site vai continuar no ar?"
Ver as pessoas copiando o Framapad pras próprias notas e perguntando sobre o site em tempo real foi muito gratificante. (Isso, aliás, me impediu de trocar meu nome de usuário no GitHub depois, só pra não quebrar os favoritos delas!)
Mas teve o lado ruim. Apesar da minha preparação pra uma oficina prática, a sessão pendeu bastante pra aula expositiva tradicional. Talvez porque eu seja novo ensinando, talvez por causa da cultura acadêmica da qual a gente fazia parte (Brasil, América Latina e África), a interatividade não aconteceu como eu planejei.
o que ficou
Ensinar uma ferramenta foi uma experiência que me colocou no meu lugar. Você só descobre se de fato ensinou quando vê alguém tentando usar.
A leitura construtivista do ensino dessas ferramentas já existe internacionalmente,5 mas eu fico pensando em quanto disso precisa ser adaptado pro pesquisador brasileiro. Na minha realidade, a gente não tem um setor de apoio à pesquisa pra ajudar no processo.
Também notei que alguns pesquisadores mais velhos tiveram dificuldade de acompanhar a interface. Isso me fez pensar nessa autonomia atravessando as diferenças geracionais com a tecnologia. Como apoiar melhor esse público é um desafio que eu ainda preciso pensar com seriedade.
o material
Se quiser ver o resultado, a documentação inteira está no ar aqui: curso-zotero (código).
Footnotes
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Dudziak, E. A. (2003). Information literacy: princípios, filosofia e prática. ↩
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Rangaswamy, B. (2021). Researcher's perception on Zotero and Mendeley.; Speare, M. (2018). Graduate student use and non-use of reference and PDF management software. ↩
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Ramer, R. (n.d.). Zotero: getting started. ↩
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. ↩
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Beatty, J. F. (2016). Zotero: a tool for constructionist learning in critical information literacy. ↩